Psicóloga Clínica · CRP 06/189754 · PUC-SP, 2022

Saúde mental de brasileiros expatriados: o que a pesquisa clínica revela

Em 2022, concluí minha pesquisa de conclusão de curso na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo com um objetivo específico: mapear o que aparece de fato no consultório quando um psicólogo atende brasileiros que moram fora do Brasil.

A pergunta não era nova, mas a resposta sistematizada era escassa. Havia literatura sobre migração forçada, sobre executivos transferidos por empresas, sobre psicologia intercultural em contextos anglófonos. Havia muito menos sobre a experiência psíquica de brasileiros que escolheram morar fora — e quase nada documentado a partir da perspectiva de quem os acompanha terapeuticamente.

Esta página apresenta os principais achados dessa pesquisa, traduzidos para uma linguagem acessível. Os dados estão disponíveis na íntegra no repositório da PUC-SP.

A pesquisa

Contexto e metodologia

A pesquisa — intitulada Particularidades no Atendimento Psicoterapêutico de Brasileiros Expatriados — foi desenvolvida sob orientação da Profa. Dra. Ivelise Fortim de Campos, do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da PUC-SP, e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da universidade (CAAE: 52679221.0.0000.5482, aprovação em 31 de março de 2022).

A escolha metodológica foi ouvir não os próprios expatriados, mas os psicólogos que os atendem. A hipótese era que terapeutas com experiência acumulada em múltiplos casos seriam capazes de identificar padrões que um único expatriado, imerso em sua própria experiência, dificilmente conseguiria ver.

Quem participou

O questionário online foi respondido por 40 psicólogos brasileiros com formação há mais de três anos e experiência clínica atendendo expatriados brasileiros há pelo menos três meses. Os participantes foram recrutados via grupos de Facebook voltados a psicólogos e pela rede da PUC-SP.

O perfil da amostra foi representativo da categoria: 82,5% de mulheres — próximo dos 88% femininos da psicologia brasileira segundo dados do CFP. Em termos de experiência, 97,5% dos respondentes tinham mais de seis anos de formação; 40% entre 11 e 20 anos. A abordagem mais frequente foi a Psicologia Analítica (35%), seguida pela Psicanálise (25%) e Psicologia Fenomenológica (15%).

O que foi perguntado

O questionário cobriu quatro dimensões: os temas mais frequentes nas sessões com expatriados; as motivações declaradas pelos pacientes para terem saído do Brasil; as motivações não conscientes ou não explicitadas percebidas pelos terapeutas; e o uso de línguas estrangeiras durante as sessões — o que fazem com esse dado e o que ele indica clinicamente.

Achados

O que aparece nas sessões

A primeira pergunta foi direta: quais temas ligados à situação de ser expatriado aparecem com mais frequência no consultório?

As respostas concentraram-se em cinco áreas:

  • 80%
    Diferenças culturais

    O choque entre a forma brasileira de viver — a comunicação, o jeito de construir relações, os valores implícitos — e as normas do país de chegada aparece em quatro de cada cinco atendimentos. É o tema mais universal da experiência de morar fora.

  • 72,5%
    Rede de apoio

    A ausência da rede — família, amigos próximos, a estrutura afetiva que sustentava a vida no Brasil — aparece como tema central na maioria dos casos. Brasileiros tendem a ter conexões sociais profundas e dependem dessas conexões de formas que só se tornam visíveis quando elas somem.

  • 57,5%
    Novas amizades

    Construir vínculos do zero num lugar novo é mais difícil do que parece, especialmente em culturas onde a amizade se constrói de forma lenta e reservada. Mais da metade dos terapeutas relatou esse tema como recorrente.

  • 42,5%
    Comunicação no idioma local

    Mesmo quando o expatriado domina o idioma, há um custo emocional de existir numa língua que não é a sua. Esse custo aparece nas sessões com frequência — não como incapacidade, mas como exaustão acumulada.

  • 37,5%
    Experiências de preconceito

    Situações de discriminação — às vezes explícitas, frequentemente ambíguas — aparecem em mais de um terço dos atendimentos. Um dado relevante: alguns pacientes têm dificuldade em reconhecer essas situações como discriminação no momento em que ocorrem.

Outros temas relevantes citados pelos terapeutas foram relacionamentos amorosos, burocracia, adaptação de filhos e parceiros, e questões de trabalho.

Motivações

Por que as pessoas saem do Brasil — e o que não dizem

A pesquisa investigou dois níveis de motivação: o que os pacientes declaram aos seus terapeutas, e o que os terapeutas percebem além do que é dito.

O que é declarado

As motivações explícitas seguem um padrão consistente com pesquisas internacionais sobre expatriação. Em ordem de frequência:

  • 85% — busca de melhores oportunidades financeiras e de carreira
  • 55% — acompanhar cônjuge ou parceiro
  • 42,5% — oportunidade de estudo fora do país
  • 40% — fuga da situação econômica brasileira

Outros fatores citados: transferência pelo trabalho, interesse em outras culturas e idiomas, instabilidade política, e fuga de violência urbana.

O que fica implícito

Quando perguntados se percebiam motivações não conscientes ou não explicitadas pelos pacientes, 65% dos terapeutas responderam que sim. Esse dado merece atenção: dois terços dos psicólogos que trabalham com esse público identificam, ao longo do processo terapêutico, camadas que o próprio paciente não tinha nomeado ao decidir sair.

As motivações inconscientes mais frequentes foram agrupadas em quatro categorias:

Fuga

A expatriação como tentativa de deixar para trás conflitos, situações difíceis ou padrões relacionais que o sujeito não conseguia ou não queria enfrentar. Os terapeutas descreveram casos de "fuga da família", de situações aversivas da história pessoal, e de pacientes que buscavam uma imagem fantasiosa de vida possível em outro país. Um dado recorrente: a mudança geográfica não elimina os conflitos psíquicos — frequentemente, os mesmos padrões se reconstituem no novo país.

Dificuldade nas relações familiares

A motivação mais frequente entre as inconscientes (27,5% dos terapeutas a identificaram). Aparece como desejo de distanciamento da família de origem, de conflitos parentais, de figuras tóxicas. Em alguns casos, os terapeutas descreveram o que a literatura psicanalítica também reconhece: a separação geográfica como concretização de uma separação simbólica que não pôde ocorrer de outra forma — especialmente em relação à figura materna.

Idealização

A construção de uma imagem do país de destino que concentra tudo o que falta no Brasil — e que inevitavelmente colide com a realidade. Os terapeutas descreveram fantasias de enriquecimento rápido, de encontrar alguém que "mude a vida", de um renascimento possível no exterior. A queda dessas idealizações é um dos momentos mais críticos do processo terapêutico com expatriados.

Busca de autoconhecimento e identidade

Em vários casos, a vontade de se conhecer é projetada no exterior — o paciente busca fora o que procura dentro. Para alguns, a expatriação é parte de um processo de construção de individualidade longe do ambiente familiar e cultural de origem. Terapeutas relataram que, nesses casos, a experiência de morar fora funcionou genuinamente como catalisador de amadurecimento psíquico.

Um achado central

A língua materna na terapia

Um dos achados mais ricos da pesquisa diz respeito ao uso de línguas nas sessões. 77,5% dos terapeutas relataram que seus pacientes expatriados usam palavras ou expressões em outros idiomas durante a psicoterapia. Apenas 22,5% disseram que isso não ocorre.

Mais relevante do que o número é o quando: o uso de outra língua ocorre principalmente em situações de forte carga emocional (27,8% dos casos) e como mecanismo de defesa ou racionalização em relação ao tema tratado (13,9%). Há também o uso por simples costume — palavras que o paciente passou a usar no cotidiano — e o esquecimento do equivalente em português.

O que a literatura especializada em psicanálise da migração — em particular o trabalho reunido por Betancourt e Anconi em Psicanálise Afora (2021) — sugere é que essa troca de línguas durante a análise raramente é neutra. A língua estrangeira pode funcionar como uma distância emocional: falar sobre algo difícil em inglês ou alemão é, para alguns pacientes, uma forma de mantê-lo à distância do afeto que aquele conteúdo carrega em português.

Em contrapartida, muitos pacientes descrevem a sessão em português como "um respiro" — o único espaço na semana em que podem existir completamente na própria língua. Essa dimensão do trabalho terapêutico só é possível quando o terapeuta compartilha não apenas o idioma, mas o repertório cultural que o idioma carrega.

Há, porém, uma tensão que a pesquisa também reconhece: a "cumplicidade" entre terapeuta e paciente da mesma cultura pode se tornar um obstáculo se não for manejada com cuidado. O terapeuta brasileiro que atende um brasileiro no exterior precisa sustentar a posição de "outro" mesmo compartilhando a mesma língua e as mesmas referências — para que o que o paciente diz não se torne óbvio demais para ser examinado.

Cultura e adaptação

O que torna a experiência brasileira específica

A pesquisa identificou um conjunto de características culturais brasileiras que influenciam — positiva ou negativamente — o processo de adaptação à expatriação.

O coletivismo brasileiro — a tendência a manter conexões sociais profundas, a dependência afetiva da rede de família e amigos — é provavelmente o fator que gera mais sofrimento quando não pode ser reproduzido no novo país. Brasileiros não são apenas uma cultura sociável; são uma cultura que constrói identidade e sentido através do coletivo. Quando esse coletivo some, o impacto vai além da solidão.

A índole relacional — a necessidade de reproduzir no exterior os elementos da "casa" brasileira, a comida, os rituais, a presença de pessoas próximas — aparece na pesquisa como um fator que pode tanto proteger quanto dificultar a adaptação. Quando a busca por reproduzir o Brasil cria um isolamento em relação ao novo país, ela se torna desadaptativa. Quando se transforma num elo de conexão com outros brasileiros, pode ser um recurso.

A versatilidade e adaptabilidade aparecem como características protetoras: a capacidade brasileira de transitar entre contextos culturais diferentes e de improvisar diante do inesperado é um ativo real na experiência de morar fora. Terapeutas relatam que, em muitos casos, essa flexibilidade é o que permite ao paciente atravessar as fases mais difíceis.

O "jeitinho brasileiro" aparece com dois lados. Como criatividade diante de obstáculos burocráticos, pode ser uma ferramenta. Como comportamento que transgride regras num contexto em que as regras são levadas a sério — como Alemanha, Suíça, ou países escandinavos — pode gerar conflitos que afetam a adaptação e a imagem profissional do expatriado.

Os terapeutas relatam ainda um fenômeno consistente: após um tempo fora, muitos pacientes percebem que se tornaram mais brasileiros do que eram antes de sair. O contato com uma cultura diferente não apaga a identidade de origem — ela a evidencia. As festas populares, a música, a culinária, as formas de falar passam a ser valorizadas de formas que raramente ocorriam no Brasil. O encontro com a alteridade, paradoxalmente, reforça o pertencimento cultural.

Implicações clínicas

O que esses achados significam na prática

Os resultados da pesquisa reforçam um ponto que os próprios terapeutas expressaram de forma direta: pacientes expatriados tendem a buscar — e a se beneficiar de — um profissional que não precise de explicações sobre o que é "saudade", o que significa mandar dinheiro para a família no Brasil, ou como o inverno europeu afeta o humor de quem cresceu no sol.

Isso não é preferência estética. É uma questão de eficiência terapêutica: quando o contexto cultural já está dado, o trabalho pode ir mais fundo mais rápido. O paciente não gasta as primeiras sessões traduzindo a própria vida.

A pesquisa também documenta algo que clínicos experientes já sabem, mas que raramente está sistematizado: a experiência de expatriação tem uma estrutura própria, com fases previsíveis, temas recorrentes e dinâmicas específicas. Conhecer essa estrutura permite ao terapeuta situar o que o paciente traz dentro de um quadro mais amplo — o que tem valor tanto diagnóstico quanto terapêutico.

Por fim, os dados sobre motivações inconscientes lembram algo fundamental: morar fora não é apenas uma decisão logística. É frequentemente um movimento psíquico carregado de conteúdo inconsciente. A terapia é, muitas vezes, o primeiro espaço em que o paciente consegue examinar o que realmente o trouxe até aqui — e o que quer fazer com isso.

Se você se reconhece nessa experiência

Esta pesquisa descreve padrões. A sua história é particular. Se você está vivendo algum desses processos — o luto migratório, o choque cultural, a sensação de não pertencer completamente a nenhum lugar — e está pensando em começar uma terapia, o caminho mais direto é uma conversa.

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